INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

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“As inteligências dormem. Inúteis são todas as tentativas de acordá-las por meio da força e das ameaças. As inteligências só entendem os argumentos do desejo: elas são ferramentas e brinquedos do desejo”. (Rubens Alves, em Cenas da Vida).
 

por Luiz Carlos Panisset Travassos [1]

RESUMO
 

Faz-se necessário uma visão do pensamento humano mais ampla e mais abrangente daquelas aceitas pelos estudos cognitivos tradicionais, sendo inegável a influência da Teoria de Jean Piaget que vê todo pensamento humano como uma luta pelo ideal do pensamento científico.Tomamos a decisão de escrever o presente artigo a respeito das “Inteligências Múltiplas”, para enfatizar um número desconhecido de capacidades humanas diferenciadas, variando desde a inteligência musical até a inteligência envolvida no entendimento de si mesmo e as implicações educacionais de tais descobertas. Apresentaremos um background da teoria, definindo “inteligência”, métodos de pesquisa, com uma visão da paisagem cognitiva, relacionando inteligência à criatividade, ao gênio, à prodigiosidade, à perícia e outras realizações mentais desejáveis.Uma consideração séria de ampla variedade de inteligências humanas que conduzem a uma nova visão de educação, sendo que a melhor maneira de compreender cada inteligência é concebendo-as como interrelacionadas, com possibilidade de existência de diferentes perfis intelectuais em diferentes grupos; resgatando portanto um novo papel para o educador.
Palavras-chave: inteligência, inteligências múltiplas, Jean Piaget, cognição.




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Breve resumo sobre as Inteligências Múltiplas de Gardner
 

Começaremos nossa descrição sobre as inteligências humanas, voltando a Paris em 1900, quando alguns pais procuraram o Sr. Alfred Binet questionando-o se haveria alguma possibilidade de detectar, através de testes psicológicos, o sucesso ou o fracasso de suas crianças nas séries primárias das escolas parisienses. Binet, rapidamente criou o teste de inteligência onde o Q.I. seria sua medida.
 

O sucesso desse teste, porém, só tornou-se evidente nos Estados Unidos, quando na 1ª Guerra Mundial, cerca de 1 milhão de recrutas foram selecionados através desse teste.
 

A insatisfação com o conceito de Q.I. e suas versões como o SAT (visões unitárias de inteligência), levaram alguns estudiosos como Tarustone e Guilford a criticarem seriamente esse conceito de inteligência.
 

Para Gardner não bastavam as críticas, ele acreditava que deveriam ser abandonados os testes e suas correlações e partir para observar as fontes de informações mais naturalistas a respeito de como as pessoas, no mundo todo, desenvolvem capacidades importantes para seu modo de vida.
 

Em seu trabalho, Gardner procura os blocos construtores das inteligências utilizadas por marinheiros, cirurgiões, feiticeiros, prodígios, sábios, crianças e artistas, enfim todos aqueles que apresentam perfis cognitivos regulares ou circuitos irregulares em diferentes culturas e espécies.
 

Ao observar todas essas fontes de informações sobre o desenvolvimento, sobre colapsos, sobre populações especiais e assim por diante, acabou reunindo uma grande quantidade de informações.

Para organizá-las Gardner teorizou as sete inteligências:
1. Inteligências Lingüísticas: característica dos poetas;
2. Inteligências Lógico-Matemática: à Capacidade lógica e matemática;
3. Inteligências Espacial: à capacidade de formar um mundo espacial e de ser capaz de manobrar e operar utilizando esse modelo (Marinheiros, Engenheiros, cirurgiões, etc.);
4. Inteligência Musical: possuir o dom da música como Mozart;
5. Inteligência Corporal-Cinestésica: capacidade de resolver problemas ou elaborar produtos utilizando o corpo (Dançarinos, Atletas, artistas, etc.);
6. Inteligência Interpessoal (ou de Liderança): capacidade de compreender outras pessoas (Vendedores, Políticos, Professores, etc.);
7. Inteligência Intrapessoal: capacidade correlativa, voltada para dentro. Capacidade de formar um modelo acurado e verídico de si mesmo e de utilizar esse modelo para operar efetivamente na vida.

8. Inteligência Naturalística: capacidade em reconhecer padrões na natureza, identificar e classificar objetos e as numerosas espécies, compreender sistemas naturais e aqueles criados pelo homem.
9. Inteligência Existencial (ou Espiritual): capacidade do homem fazer perguntas e encontrar respostas sobre si mesmo, sua origem e seu fim.

Para Gardner o propósito da escola deveria ser o de desenvolver essas inteligências e ajudar as pessoas a atingirem seus objetivos de ocupação adequados ao seu espectro particular de inteligência. Gardner propõe uma escola centrada no indivíduo, voltada para um entendimento e desenvolvimento ótimos do perfil cognitivo do aluno.
 

A escola ideal de Gardner baseia-se em algumas suposições:
• nem todas as pessoas têm os mesmos interesses e habilidades, nem aprendem da mesma maneira.
• ninguém pode aprender tudo o que há para ser aprendido.
• a tarefa dos especialistas em avaliação seria a de tentar compreender as capacidades e interesses dos alunos de uma escola.
• a tarefa do agente de currículo para o aluno seria a de ajudar a combinar os perfis, objetivos e interesses dos alunos a determinados currículos e determinados estilos de aprendizagem.
• a tarefa do agente da escola-comunidade seria a de encontrar situações na comunidade determinadas pelas opções não disponíveis na escola, para as crianças que apresentam perfis cognitivos incomuns.
• um novo conjunto de papéis para os educadores deveria ser construído para transformar essas visões em realidade.
• Gardner passa a se preocupar com aquelas crianças que não brilham nos testes padronizados, e que, consequentemente, tendem a ser consideradas como não tendo nenhum tipo de talento.
 

Para Gardner os professores seriam liberados para fazer aquilo que deviam fazer: ensinar o assunto de sua matéria, em seu estilo de ensino preferido. O professor-mestre faria a supervisão e a orientação dos professores inexperientes, procurando assegurar que a equação aluno-avaliação-currículo-comunidade estivesse adequadamente equilibrada. Para concretizarmos a escola centrada no aluno devemos resistir as enormes pressões atuais para a uniformidade e para as avaliações unidimensionais.

Para Gardner existem 3 tipos de preconceitos na sociedade atual.
Ocidentalista: colocar certos valores culturais ocidentais num pedestal (Pensamento lógico);
Testista: sugere um preconceito no sentido de focar aquelas capacidades ou abordagens humanas que são prontamente testáveis. “Os psicólogos deveriam passar menos tempo classificando as pessoas e mais tempo tentando ajudá-las”.
Melhorista: qualquer crença de todas as respostas para um dado problema estão em uma determinada abordagem, tal como o pensamento lógico-matemático, pode ser muito perigoso.
 

Se pudéssemos mobilizar toda a gama das inteligências humanas e aliá-las a um sentido ético, talvez pudéssemos ajudar a aumentar a probabilidade da nossa sobrevivência neste planeta, e talvez inclusive contribuir para a nossa prosperidade.
 

O Que Constitui uma Inteligência?
 

Na visão tradicional a inteligência é conceituada como a capacidade de responder a testes de inteligência, o Q.I. Alguns testes realizados demonstram que a “faculdade geral da inteligência” não muda muito com a idade ou com treinamento ou experiência. A inteligência é um atributo ou uma faculdade inata do ser humano.
 

Gardner procurou ampliar este conceito. A inteligência para ele, é a capacidade de solucionar problemas ou elaborar produtos que são importantes em um determinado ambiente ou comunidade cultural. 

A capacidade de resolver problemas permite às pessoas abordar situações, atingir objetivos e localizar caminhos adequados a esse
objetivo.
 

A criação de um produto cultural torna-se crucial nessa função na medida em que captura e transmite o conhecimento ou expressa as opiniões ou sentimentos da pessoa. Os problemas a serem resolvidos são os mais diversos, indo desde uma teoria científica até uma composição poética ou musical.
 

A teoria das inteligências múltiplas foi elaborada à luz das origens biológicas de cada capacidade de resolver problemas. A tendência biológica deve ser vinculada aos estímulos culturais. A linguagem, por exemplo, que é uma capacidade universal, ora pode apresentar-se como oratória, ora como escrita, ou secreta, etc.
 

Considerando o desejo de selecionar inteligências como é possível identificá-las? Gardner procurou evidências de várias fontes:
• o conhecimento a respeito do desenvolvimento normal;
• do desenvolvimento em indivíduos talentosos;
• informações sobre o colapso das capacidades cognitivas nos casos de danos cerebrais;
• estudos sobre prodígios, autistas e estudos psicológicos;
• testes de correlações e outros.
 

Somente as inteligências candidatas que satisfaziam a todos ou a maioria dos critérios foram selecionadas como inteligências genuínas justamente por satisfazer determinados critérios e fazerem parte de um conjunto de operações identificáveis. Dessa forma, cada inteligência deve ter uma operação nuclear ou um conjunto de operações, semelhante a um sistema neural, sendo cada inteligência ativada ou desencadeada por certos tipos de informações internas ou externas. Como exemplo ele cita que o núcleo da inteligência
musical está na sensibilidade para determinar relações, ao passo que um dos núcleos da inteligência lingüística é a sensibilidade aos aspectos fonológicos.
 

Para ele a inteligência deve ser capaz de ser codificada num sistema de símbolos e significados culturalmente criados que capturam e transmitem formas importantes de informação. A linguagem, a pintura e a matemática são símbolos quase universais necessários à sobrevivência e à produtividade humana. A inteligência relaciona-se com um sistema de símbolos não por acidente mas, por ser esta a forma da sua manifestação.
 

As sete Inteligências e localização no cérebro humano:
 

1. Inteligência lingüística: é o tipo de capacidade exibida em sua forma mais completa, talvez pelos poetas.
Localização: parte do cérebro chamada Centro de Broca.
 

2. Inteligência lógico-matemática: é a capacidade lógico-matemática, assim como a capacidade científica.
Localização: Centro de Broca
 

3. Inteligência espacial: é a capacidade de formar um modelo mental de um mundo espacial e ser capaz de manobrar e operar utilizando esse modelo. Exemplo: Os marinheiros, engenheiros, cirurgiões, pintores, escultores.
Localização: Hemisfério direito do cérebro.
 

4. Inteligência musical: é a capacidade voltada para a música. Exemplo: Leonardo Bernstein, Mozart.
Localização: hemisfério direito.
 

5. Inteligência corporal cinestésica: capacidade de resolver problemas ou de elaborar produtos utilizando o corpo inteiro, ou partes do corpo. Exemplo: dançarinos, atletas, cirurgiões e artistas. A dominância desse movimento é encontrado no hemisfério esquerdo.
 

6. Inteligência interpessoal ou de liderança: capacidade de compreender outras pessoas: o que as motiva, como elas trabalham, como trabalhar cooperativamente com elas. Exemplo: vendedores, políticos, professores, clínicos (terapeutas) e líderes religiosos bem-sucedidos.
Localização: Lobos frontais.
 

7. Inteligência intrapessoal: é uma capacidade correlativa voltada para dentro. É a capacidade de formar um modelo acurado e verídico de si mesmo e de utilizar esse modelo para operar efetivamente na vida.
Localização: lobos frontais.


 

Considerações
 

Tendo esboçado as características e critérios de uma inteligência, apresentaremos breves considerações de cada uma das sete inteligências.
 

Cada esboço foi feito embasado numa breve biografia de uma pessoa que demonstra uma facilidade incomum naquela inteligência. Embora cada biografia ilustre uma inteligência particular, não se pode dizer que na idade adulta as inteligências operam isoladamente. Exceto em indivíduos anormais, as inteligências sempre funcionam combinadas e, qualquer papel adulto sofisticado envolverá uma fusão de várias delas.
 

Inteligência musical
 

Exemplo: Yehudi Menuhin foi colocado por seus pais na Orquestra de São Francisco. O som do violino o fascinou tanto que quis ganhar um em seu aniversário e quis também fazer aulas com o prof. Louis. Conseguiu ambos e com apenas dez anos se tornou um músico internacional.
 

A inteligência musical do violonista manifestou-se mesmo antes dele ter tocado ou recebido qualquer treinamento musical. Sua poderosa reação àquele som particular e seu rápido progresso no instrumento sugerem que ele estava biologicamente preparado de alguma maneira para esse empreendimento. Dessa forma, a evidência das crianças-prodígio apoia a afirmação de que existe um vínculo biológico a uma determinada inteligência. Outras populações especiais, como a das crianças autistas que conseguem tocar maravilhosamente um instrumento musical, mas não conseguem falar, enfatizam a independência da inteligência musical.
 

Uma breve consideração desta evidência sugere que a capacidade musical é aprovada em outros testes para uma inteligência. Por exemplo, certas partes do cérebro desempenham papéis importantes na percepção e produção da música. Estas áreas estão caracteristicamente localizadas no hemisfério direito. As evidências que apoiam a interpretação da capacidade musical, como uma “inteligência” chegam de várias fontes. Mesmo que a capacidade musical não tipicamente considerada como uma capacidade intelectual, como a matemática. Ela se qualifica a partir dos critérios estabelecidos. Por definição, ela merece ser considerada; e, tendo em vista os dados, sua inclusão está empiricamente justificada.
 

Inteligência corporal-cinestésica
 

Exemplo: Babe, aos quinze anos jogava na terceira base. Quando num certo momento ruim do jogo, Babe criticou-o lá da terceira base, até que o técnico sugeriu que ele arremessasse. Babe hesitou e lançou, em seguida se tornou um batedor legendário.
 

Babe Ruth reconheceu seu “instrumento” imediatamente, em seu primeiro contato com ele. Esse reconhecimento ocorreu antes de um treinamento formal.
 

O controle do movimento corporal está, evidentemente, localizado no córtex motor, com cada hemisfério dominante ou controlador dos movimentos corporais no lado contra-lateral. Nos destros, a dominância desse movimento normalmente é encontrada no hemisfério esquerdo. A capacidade de realizar movimentos quando dirigido para fazê-los pode estar prejudicada mesmo nos indivíduos que podem realizar os mesmos movimentos reflexivamente ou numa base involuntária. A existência de uma apraxia específica constitui uma linha de evidência de uma inteligência corporal-cinestésica.
 

A evolução dos movimentos especializados do corpo é uma vantagem óbvia para as espécies, e nos seres humanos esta adaptação é ampliada através do uso de ferramentas. O movimento corporal passa por um programa desenvolvimental claramente definido nas crianças.
 

A consideração do conhecimento corporal cinestésico como solucionador de “problemas” talvez seja menos intuitiva. Executar uma seqüência mímica ou bater numa bola de tênis não é resolver uma equação matemática. E, no entanto, a capacidade de usar o próprio corpo para expressar uma emoção (como a dança), jogar um jogo (como esporte) ou criar um novo produto (como no planejamento de uma invenção) é uma evidência dos aspectos cognitivos do uso do corpo.
 

Inteligência lógico-matemática
 

Exemplo: Em 1983, Bárbara Mc Clintock ganhou o Prêmio Nobel de Medicina ou fisiologia por seu trabalho em microbiologia. Seus poderes intelectuais de dedução e observação ilustram uma forma de inteligência lógico-matemática, freqüentemente rotulada como “pensamento científico”.
 

Um incidente é particularmente esclarecedor na resolução do problema: a esterilidade do milho. Seu assistente de pesquisa encontrava plantas que eram apenas 25 a 30 por cento estéreis enquanto ela encontrava 50 por cento de esterilidade no milho. Isso se comprovou depois quando ele arquitetou o seu raciocínio passo a passo originando daí a diferença dos 30 por cento.
 

Esse fato ilustra bem dois aspectos da inteligência lógico-matemática. Primeiramente, no indivíduo talentoso, o processo de resolução do problema geralmente é surpreendentemente rápido. O cientista lida com várias hipóteses que avaliadas serão aceitas ou rejeitadas.
 

O fato registra também a natureza não verbal da inteligência. A solução de um problema pode ser encontrada antes de ser articulada. Isso acontece com ganhadores de Prêmio Nobel ou então com quem possui a inteligência lógico-matemática.
 

Esta inteligência é apoiada por critérios empíricos. Certas áreas do cérebro são mais importantes do que outras no cálculo matemático.
 

Inteligência lingüística
 

Exemplo: Com dez anos de idade T.S. Eliot criou uma revista chamada Fireside, da qual era o único colaborador. Num período de três dias, durante as férias de inverno, ele criou oito edições completas. Cada uma incluía poemas, histórias de aventuras, uma coluna de fofocas e humor.
 

A inteligência lingüística foi comprovada nos testes empíricos. Uma área específica do cérebro, chamada “Centro de Broca”, é responsável pela produção de sentenças gramaticais. Uma pessoa com dano nesta área pode compreender palavras e frases muito bem, mas tem dificuldade em juntar palavras em algo além das frases mais simples. Ao mesmo tempo, outros processos de pensamento podem estar completamente inalterados.
 

O dom da linguagem é universal e o seu desenvolvimento nas crianças é surpreendentemente constante em todas as cultura. Mesmo nas populações surdas, em que a linguagem manual de sinais não é ensinada, as crianças inventam sua própria linguagem manual.
 

Inteligência espacial
 

Exemplo: A navegação nas Ilhas Caroline, nos mares do Sul, é realizada sem instrumentos. O navegador imagina uma ilha de referência, quando passa embaixo de uma determinada estrela, e a partir disso ele computa o número total de segmentos, a proporção de viagem que ainda resta, e quaisquer correções no curso que sejam necessárias. Ele não vê as ilhas enquanto navega, em vez disso, ele mapeia sua localização em sua “imagem” mental da jornada.
 

Para se resolver problemas espaciais é necessário na navegação e no uso do sistema notacional de mapas. Outra forma de uso dessa inteligência é quando visualizamos um objeto de um ângulo diferente; o jogo de xadrez. As artes visuais também utilizam esta inteligência no uso do espaço.
 

O hemisfério direito é comprovadamente o local mais crucial do processamento espacial. Um dano nas regiões posteriores direitas provoca prejuízo na capacidade de encontrar o próprio caminho em torno de um lugar, de reconhecer rostos ou cenas, ou de observar detalhes pequenos.
 

As populações cegas ilustram a distinção entre a inteligência espacial e a percepção visual. A pessoa cega pode recorrer ao método indireto para reconhecer formas, passando a mão no objeto que traduzirá na duração do movimento, que por sua vez é traduzida no formato do objeto. Para o cego, o sistema perceptivo da modalidade tátil equivale à modalidade visual na pessoa que enxerga.
 

Existem poucas crianças-prodígio entre os artistas visuais, porém há sábios idiotas. Nádia (Selfe, 1977) é autista e no entanto desenhava com impressionante destreza representacional e exatidão.
 

Inteligência interpessoal
 

Exemplo: Com pouco treinamento em educação especial e quase cega, Anne Sullivan iniciou a tarefa de instruir uma criança cega e surda de sete anos. Helen Keller apresentou um sinal de compreensão da linguagem e a partir daquele momento ela progrediu com incrível rapidez. A chave para o milagre da linguagem foi o entendimento de Anne Sullivan da pessoa Helen Keller.
 

A inteligência interpessoal está baseada na capacidade nuclear de perceber distinções entre os outros; em especial, contrastes em seus estados de ânimo, temperamentos, motivações e intenções. Em formas mais avançadas, esta inteligência permite que um adulto experiente perceba as intenções e desejos de outras pessoas, mesmo que elas os escondam. O exemplo citado sugere que esta inteligência não depende da linguagem.
 

Os indícios na pesquisa do cérebro sugere que os lobos frontais desempenham um papel importante no conhecimento interpessoal. Um dano nessa área pode provocar profundas mudanças de personalidade, ao mesmo tempo que não altera outras formas de resolução de problemas.
 

A evidência biológica da inteligência interpessoal inclui dois fatores, geralmente citados como exclusivos dos seres humanos. Um dos fatores é a prolongada infância dos primatas, incluindo o estreito apego à mãe. Quando a mãe se afasta, o desenvolvimento interpessoal fica prejudicado.
 

O segundo fator é a relativa importância da interação social para os seres humanos. As habilidades tais como caçar, perseguir e matar, nas sociedades pré-históricas exigia a participação e cooperação de grande número de pessoas. A necessidade de coesão, liderança, organização e solidariedade no grupo decorre naturalmente disso.
 

Inteligência intrapessoal
 

Exemplo: Woolf num ensaio intitulado A Sketch of the Cast, discute o algodão da existência. Ela compara o “algodão” com três lembranças específicas de sua infância: uma briga com seu irmão, ver uma determinada flor num jardim e ficar sabendo do suicídio de um antigo visitante. Para a autora, todas as experiências trouxeram para ela um aprendizado, fossem eles causadores de um estado de choque ou não. Sendo choques, ela procura uma explicação e atrás de cada um é uma revelação de algum tipo, é o sinal de alguma coisa real por trás das aparências e daí elas se tornam reais.
 

O conhecimento dos aspectos internos de uma pessoa: o acesso ao sentimento da própria vida, a gama das próprias emoções, a capacidade de discriminar essas emoções e eventualmente rotulá-las e utilizá-las como uma maneira de entender e orientar o próprio comportamento.
 

A pessoa com boa inteligência intrapessoal possui um modelo viável e efetivo de si mesmo. Uma vez que esta inteligência é a mais privada, ela requer a evidência a partir da linguagem, da música, ou de alguma outra forma mais expressiva de inteligência para que o observador a perceba funcionando.
 

Os lobos frontais desempenham um papel central na mudança de personalidade. Um dano na área inferior dos lobos frontais provavelmente produzirá irritabilidade ou euforia, ao passo que um dano nas regiões mais altas provavelmente produzirá indiferenças, desatenção, lentidão e apatia – um tipo de personalidade depressiva. Nesses indivíduos “lobo-frontais”, as outras funções cognitivas geralmente continuam preservadas. O autista apresenta essa inteligência prejudicada.
 

A inteligência intrapessoal é aprovada nos testes de uma inteligência e apresenta uma forma de resolver problemas significativos para o indivíduo e para a espécie. Ela nos permite compreender a nós mesmos e trabalhar conosco.
 

A Existência de Outras Inteligências
 

O que impede que um teórico ambicioso construa uma nova “inteligência” para cada capacidade encontrada no comportamento humano? Nesse caso, em vez de sete inteligências, poderia haver 700!
 

Uma lista de 700 inteligências seria proibitiva para o teórico e inútil para o praticante. Consequentemente, a teoria das IM tenta articular apenas um número manejável de inteligências que parecem constituir tipos naturais. Existem todas as razões para esperarmos que cada tipo natural tenha vários subcomponentes. Por exemplo, a inteligência lingüística claramente implica em vários elementos dissociáveis, tais como as capacidades de realizar análises sintáticas, ter aptidão literária e aprender línguas ouvindo. 

Entretanto, também é provável que , na maioria dos comportamentos humanos, os vários subcomponentes de uma inteligência se agrupem, embora apresentem pouca inclinação a correlacionar-se com subcomponentes de outras inteligências. Esta afirmação pode ser testada empiricamente.
 

Por que a inteligência espiritual ou moral não é considerada?
 

A inteligência espiritual ou moral serve como uma candidata razoável para uma oitava inteligência, embora existam razões igualmente boas para considerá-la um amálgama da inteligência interpessoal e da inteligência intrapessoal, com um componente de valor acrescentado. O que é moral ou espiritual depende imensamente dos valores culturais; ao descrever as inteligências, nós estamos lidando com capacidades que podem ser mobilizadas pelos valores de uma cultura, e não pelos comportamentos que são, eles próprios, valorizados de uma maneira ou outra.
 

Existe uma inteligência artística?
 

Muitos indivíduos falaram informalmente sobre a inteligência artística ou as inteligências artísticas, e não vemos nada de errado nessa maneira de falar – pode servir como uma abreviatura para a inteligência musical, ou para aspectos da inteligência espacial ou lingüística.
 

Entretanto, tecnicamente, nenhuma inteligência é inerentemente artística ou não-artística. As inteligências funcionam artisticamente (ou não-artisticamente) na medida em que exploram certas propriedades de um sistema simbólico. Se um indivíduo utilizar a linguagem de uma maneira comum, expositiva, ele não está utilizando a inteligência lingüística de uma maneira estética. Se, por outro lado, a linguagem é utilizada metaforicamente, expressivamente, ou de uma maneira que chame a atenção para o som ou para as propriedades estruturais, então ela está sendo usada artisticamente. A mesma inteligência “espacial” pode ser explorada esteticamente por um escultor, não artisticamente por um geômetra ou cirurgião. Mesmo um sinal musical pode funcionar não artisticamente, como acontece com os toque de corneta das forças armadas, enquanto muitos padrões derivados de propósitos matemáticos acabaram sendo expostos em galerias de arte.
 

A possibilidade de uma inteligência ser utilizada artisticamente é uma decisão tomada pelo indivíduo e/ou pela cultura. Um indivíduo pode decidir se vai empregar a inteligência lingüística como escritor, advogado, vendedor, poeta ou orador. No entanto, as culturas podem favorecer ou impedir a possibilidade de usos artísticos da inteligência. Em algumas culturas, quase todas as pessoas desenvolvem algumas capacidades poéticas; mas Platão tentou eliminar a poesia de sua República. Claramente, então, o exercício de uma determinada inteligência de maneira artística envolve um julgamento de valor.
 

A Perspectiva biopsicológica
 

Para falarmos e entendermos a Teoria das Inteligências Múltiplas não podemos esquecer que cada ato cognitivo envolve um agente que executa uma ação ou uma série de ações em alguma tarefa ou domínio.A perspectiva biopsicológica examina o agente e suas capacidades, inclinações, valores e objetivos.
 

A inteligência é um potencial biopsicológico. O fato de um indivíduo ser ou não considerado inteligente e em que aspectos, é um produto em primeiro lugar de sua herança genética e de suas propriedades psicológicas, variando de seus poderes cognitivos às suas disposições de personalidade.
 

Segundo Gardner (1998) o talento é sinal de um potencial biopsicológico precoce, em algum dos domínios existentes numa cultura sendo a prodigiosidade uma forma extrema de talento em algum domínio. Mozart, poe exemplo, se qualificou como prodigioso em virtude de seus talentos extraordinários na esfera musical. E os termos especialista e perito são adequados somente depois que um indivíduo trabalhou por cerca de uma década num determinado domínio.
 

A criatividade é uma caracterização reservada para aqueles produtos que inicialmente são considerados uma novidade dentro do domínio embora acabem sendo reconhecidos como aceitáveis dentro da comunidade adequada.
 

O termo gênio deve ser designado para aquelas pessoas ou trabalhos que não são só peritos e criativos, mas que também assumem um significado universal ou quase universal.
 

Na medida em que uma capacidade é valorizada numa cultura, ela pode contar com uma inteligência, mas na ausência desse endosso cultural, a capacidade não seria considerada uma inteligência.
 

Nos primeiros anos de vida as crianças desenvolvem habilidades simbólicas e conceitos teóricos por meio de interações espontâneas com o mundo na qual vivem. O desenvolvimento inicial é “pré-domínio” e “pré-campo”. Elas se desenvolvem apenas com uma vaga atenção aos domínios que existem em sua cultura, e com uma sensibilidade ainda menor à existência dos campos que julgam. Mesmo que o campo fique impressionado com os trabalhos das crianças pequenas, elas prosseguem numa sublime indiferença às operações do campo.
 

Logo depois que se inicia a escola, as crianças querem conhecer as regras dos domínios e as convenções da cultura, e buscam dominá-las tão rápida e prontamente quanto possível. E assim, para Gardner a existência do domínio, e uma sensibilidade ao campo, surgem como ímpeto.
 

Este período funciona como aprendizado, um aprendizado rumo à perícia em domínios específicos, um aprendizado rumo à perícia nos hábitos de uma cultura. As condições para uma vida criativa (ou não-criativa) já podem estar sendo criadas, pois a criatividade depende imensamente de traços de personalidade e disposição, e dos acidentes da demografia.
 

As idades de 15 e 25 anos representam o momento da verdade no desenvolvimento da matriz de talento. Suas inteligências estão sendo desenvolvidas a serviço do funcionamento normal, produtivo, de sua atual sociedade.
 

Por volta de 30 a 35 anos a situação fundamental na matriz de talento provavelmente já foi determinada.
Aí chega-se a perguntas cruciais: O que pode ser feito para estimular o talento ? Que tipos de desempenhos ou realizações extraordinárias são desejadas ?
 

As crianças em diferentes idades possuem necessidades diferentes, respondem a diferentes formas de informação cultural e assimilam conteúdos com diferentes estruturas motivacionais e cognitivas, logo os tipos de regimes educacionais planejados pelos educadores precisam levar em conta esses fatores desenvolvimentais. Os tipos de modelos educacionais que são oferecidos às crianças pode demonstrar a direção que elas poderão tomar, podendo ser encorajadas ou não para a perícia, criatividade, etc. Em nossa sociedade pode haver modelos contrastantes sobre os usos do talento e as maneiras pelas quais ele pode ser desenvolvido.
 

Qualquer tipo de talento jamais pode ser adequadamente conceitualizado como existindo unicamente na cabeça ou no corpo dos indivíduos. Os educadores devem manter em mente os fatores extrapessoais que desempenham um grande papel no desenvolvimento(ou impedimento) do talento.
 

Conclusão
 

Não existe nenhuma receita para a educação das inteligências múltiplas. A Teoria das Inteligências Múltiplas foi desenvolvida numa tentativa de descrever a evolução e a topografia da mente humana. A mente é um instrumento multifacetado, de múltiplos componentes, que não pode, de qualquer maneira legítima, ser capturada num simples instrumento estilo lápis e papel. Portanto, a necessidade de se repensar os objetivos e métodos educacionais torna-se profunda.
 

Os neurobiólogos documentaram que o sistema nervoso humano é altamente diferenciado. Todos os seres humanos normais possuem vários potenciais, mas por razões genéticas e ambientais, os indivíduos diferem notavelmente nos perfis particulares de inteligência que apresentam em qualquer momento dado de sua vida.
 

Conseguimos “preencher” nossos numerosos papéis e posições mais efetivamente porque as pessoas apresentam perfis de inteligências diferentes. Já está estabelecido que os indivíduos possuem mentes muito diferentes umas das outras.
 

A educação deveria ser modelada de forma a responder a essas diferenças, deveria se tentar garantir que cada pessoa recebesse uma educação que maximizasse seu potencial intelectual, pois nenhum indivíduo pode dominar completamente nem mesmo um único corpo de conhecimentos, quanto mais toda a série de disciplinas e competências.
 

Logo, a Teoria das Inteligências Múltiplas não deve ser utilizada para ditar um curso de estudos ou carreira, mas constitui uma base razoável para sugestões e escolhas de matérias opcionais.
 

Há premência de se direcionar a aprendizagem para a compreensão ampla de ideias e valores indispensáveis no momento atual e isso poderá ser obtido a partir de uma metodologia baseada na interdisciplinaridade, na qual o professor seja um elemento mediador do conhecimento, exercitando a pesquisa de novos saberes, em sintonia com as necessidades dos tempos atuais; sem desconsiderar os variados potenciais de cada aluno.
 

Que elemento diferenciador e determinante há na personalidade de dois pintores famosos como Monet e Van Gogh, que, ao retratarem “girassóis”, alcancem um resultado estético tão diferente? Podemos dizer que, enquanto Monet retrata girassóis leves e brandos, os de Van Gogh, tão belos quanto os de Monet exprimem a dor e o trágico?
 

Qual terá sido o papel da escola na formação desses cidadãos que se permitem usar, abusar e brincar com as imagens, exprimir seus sentimentos e suas formas próprias de ver a vida, sem cerimônia? 
Qual poderá ser o nosso papel, como professores, de abrir as portas da imaginação, da fantasia, da inventividade ampla como requisito de aceso à leveza e a uma maneira bem-humorada, e até poética, de levar a vida?
 

Conhecendo a Teoria das Inteligências Múltiplas, concluímos que na Escola, o prazer e o desejo de todos não devem submeter-se aos desígnios da razão, ou seja, importa desenvolver o pensamento lógico e a cognição, em parceria com as demais dimensões humanas, sempre.
 

“A tarefa do professor: mostrar a frutinha. Comê-las diante dos olhos dos alunos. Provocar a fome. Erotizar os olhos, fazê-los babar de desejo. Acordar a inteligência adormecida. Aí a cabeça fica grávida: engordar com idéias. E quando a cabeça engravida não há nada que segue o corpo”. (Rubens Alves)
 

Bibliografia
 

GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas: a Teoria na Prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
GARDNER, Howard. A Criança pré-escolar :como pensa e como a Escola pode ensiná-la. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
CECI, S.J. On Intelligence … more or less : a bio-ecological theory of intellectual development. Englewood cliffs, N.J. Prentice Hall.
 

[1] – Graduado em Ciências Biológicas pelas FAMIH, professor de Ciências e Biologia para o ensino fundamental e médio do Instituto Metodista Izabela Hendrix – Professor de Citologia das Faculdades Metodistas Integradas Izabela Hendrix – Mestrando em Engenharia da Produção da UFSC com ênfase em Informática Aplicada à Educação – luizpanisset@hotmail.com




Fonte: REVISTA DE BIOLOGIA E CIÊNCIAS DA TERRA – Volume 1 – Número 2 – 2001




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Autor: Instituto Mensageiros do Amanhecer
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