Índigo: “Pistas para o sucesso escolar” (Inês Menezes)

Índigo: “Pistas para o sucesso escolar”

(Inês Menezes)

(Jornal Público – Revista XIS – Setembro 2004)

O insucesso escolar é uma preocupação antiga. Os processos de aprendizagem são complexos, muitas crianças têm dificuldades de concentração ou revelam falta de interesse e acabam por ter baixos índices de aproveitamento. É preciso alterar esta tendência negativa e motivar as crianças.

Por um lado, todos temos diferentes ritmos de desenvolvimento, coisa que obviamente dificulta a aprendizagem numa sala de aula com muitos alunos; por outro lado, algumas matérias são muito densas ou desinteressantes.

“As crianças não vêem a ligação entre aquilo que aprendem e a sua aplicação prática”, diz Isabel Leal, técnica de aconselhamento escolar. As perturbações que estão por trás de um baixo rendimento escolar podem ser de ordem familiar, escolar, pessoal, alimentar, do sono, ou ainda porque a criança, na verdade, não está interessada em estudar. A causa das coisas. A desmotivação pode ainda ter a ver com questões pontuais, associadas a oscilações familiares, como o divórcio dos pais, a perda de um ente querido ou, até, porque os pais ficam, pontualmente, menos disponíveis.

“As crianças são muito sensíveis e a mínima desatenção pode ser causa de insucesso escolar”, explica Isabel Leal.

Mas existem mais causas: as crianças podem não se adaptar ao ambiente escolar, aos colegas, professores e auxiliares, coisa que pode implicar até uma mudança de escola que, nestes casos, pode ser benéfica para todos. Na realidade, se a criança se revela desinteressada, é fundamental perceber as razões, colaborando e mostrando abertura, de forma a que possa exteriorizar o que realmente a bloqueia. Outros fatores. O insucesso escolar pode ter ainda outras origens. A falta de motivação e as lacunas na comunicação entre aluno e professor são sempre fatores agravantes. Conforme esclarece Isabel Leal, a falta de vocação dos professores pode ser outro problema.

Entram na via do ensino por falta de alternativas, muitos deles sem qualquer vocação para ensinar. A falta e empenho de alguns professores é, obviamente, um problema e uma realidade com que muitas escolas lidam. “Quando o professor gosta do que faz, a energia que dele emana é positiva e os alunos, geralmente, gostam dele, o que ajuda a que tudo corra muito melhor. Os professores e os alunos passam muitas horas juntos e vale a pena investir para que este seja um tempo de qualidade e construção harmoniosa”, sublinha a especialista. Devemos reconhecer, no entanto, que esta profissão, mesmo quando efetuadas por vocação e com dedicação, encerra em si um enorme desgaste, exposição e responsabilidade.

Atitude do aluno. Os alunos, pelo seu lado, adotam muitas vezes uma atitude desafiadora ou de diversão, atitude contrária ao que seria esperado. Aprender e estar atento na sala de aula implica disciplina, concentração e uma série de esforços que a maior parte dos estudantes recusa liminarmente.

A sala de aula acaba, muitas vezes, por ser a continuação do recreio devido à falta de atenção, de esforço e de empenho dos alunos. Embora muitos pais invistam dinheiro e tempo em explicações, muitos alunos continuam a ser desatentos e perturbadores. Na maior parte dos casos estão radicalmente desinteressados das matérias escolares. Mesmo que os métodos de trabalho e aprendizagem estejam errados ou inadequados, alguns alunos não querem, de fato, aprender. Na maioria, estes alunos nem compreendem a matéria nem tentam esclarecer dúvidas.

Conforme afirma Carlos Fontes, professor de filosofia com um mestrado em sociologia da cultura, “um bom aluno não é aquele que estuda muito, mas aquele que tem capacidade de organização, sabe o que deve reter para efeito da sua progressão na aprendizagem e se esforça para acompanhar a matéria dada nas aulas.”

A orientação vocacional é outro dos aspectos que pode influenciar negativamente o sucesso escolar dos alunos, que muitas vezes estão desajustados na sua área de estudos, pois escolheram em função de critérios errados, fugindo, por exemplo, de algumas disciplinas mais complicadas, das quais a matemática é um exemplo clássico.

Escolas.

As escolas, em geral, não estão preparadas para lidar com este tipo de problema, pois têm déficits terríveis de organização e gestão. Os professores são cumulados de burocracias, há falta de organização em algumas escolas e os pais também não cumprem o seu papel. Ou estão alheios ou são excessivos (e, até mesmo, evasivos) e, sem querer, dificultam a integração dos alunos. Outro aspecto negativo está relacionado com o fato de as escolas funcionarem numa lógica corporativa, ou seja, de não existir uma estrutura organizada em função do tipo de alunos, o que aumenta ainda mais a dificuldade em lidar com os problemas reais de cada um.

Alguns países, como por exemplo a Alemanha, são exemplos positivos, pois existem estruturas organizadas segundo o tipo de alunos, as suas capacidades, dificuldades de aprendizagem, etc.

Em Portugal, infelizmente, os alunos raramente são olhados e tratados de forma individual. Aliás, poucos sabem em que consiste este olhar mais individualizado e em que se traduziria, no caso de existir.

O que fazer? Uma vez aqui chegados, muitos pais questionam-se sobre o que fazer e como pensar.

Devemos forçar as crianças a estudar quando chegam a casa depois de um dia de aulas? E devemos repreendê-las quando têm resultados negativos? Estas são apenas duas entre muitas dúvidas dos pais.

Isabel Leal garante que não devemos forçar, mas, sim, apoiar as crianças. Um apoio diário ou de duas vezes (dependendo de cada caso) por semana é fundamental para que não exista acumulação de matéria não assimilada.

Os horários dos adultos são cada vez mais violentos, deixando pouco ou nenhum espaço para acompanhar os filhos. Trata-se, no entanto, de um espaço que deve ser visto como um tempo de qualidade familiar, em que pais e filhos estão juntos. “Com esta presença constante, além do apoio escolar, a criança sente mais confiança e auto-estima, supera melhor as dificuldades e sente mais a proximidade dos pais”, reforça.

Por outro lado, Isabel Leal considera que não se deve atuar junto das crianças de forma negativa. Devemos ensinar pela positiva, utilizando métodos criativos, procurando que haja entendimento para que as tarefas sejam efetuadas no menor espaço de tempo e com o menor esforço despendido possíveis. Não é fácil, mas com paciência e criatividade, é possível. “O castigo não é uma alternativa. Devemos tentar perceber por que motivo a criança tem dificuldades. Ou seja, existe sempre um motivo prático e objetivo para falhar. É necessário identificá-lo e criar métodos de resolução, envolvendo a criança”, adverte.

Saber motivar. Por tudo o que fica dito, é importante motivar as crianças para o estudo, ajudando-as a superar dificuldades. É necessário um trabalho didático e de apoio diário em casa, junto de um profissional ou num centro de tempos livres, logo após a escola.

Isabel Leal trabalha no Centro de Desenvolvimento e Atividades Crianças Arco-Íris (Fone 968243971) onde existem várias alternativas e, entre elas, técnicas como a meditação, o reiki, a musicoterapia.

Na opinião desta especialista, estas técnicas ajudam a centrar as crianças e podem ser utilizadas durante cinco a dez minutos antes do início da sessão de estudos. Dependendo do número de alunos em causa e do local onde decorrem os trabalhos, pode ser utilizada apenas uma técnica ou várias em conjunto.

A meditação é aplicada a crianças com o objetivo de exercitar os dois hemisférios cerebrais. Sempre que o estado meditativo é treinado, exercita-se o lado criativo. Libertar-se, de uma forma natural, o que a criança mais gosta de ser e fazer. “Efetuada a experiência de iniciar uma classe com e sem meditação, devo dizer faz toda a diferença. Entre aqueles que meditam, o índice de concentração, calma e foco no trabalho é muito maior. A meditação desperta nas crianças sensações de calma, paz, melhoria da capacidade mental, estimula o vigor e a disposição, dando consciência real da vida e do meio ambiente onde se encontram”, refere.

Claro que estamos a falar de uma meditação adequada a cada idade e estádio de desenvolvimento. Aprender a focalizar e a visualizar pode ter benefícios práticos, “ajudando a manter a capacidade de concentração e facilitando a aprendizagem”, conclui Isabel Leal.

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