A Criança Índigo (por Márcia Cezimbra)

A Criança Índigo
(por Márcia Cezimbra)
REVISTA O GLOBO
Rio, 27 de julho de 2003 – Versão impressa

O seu filho “viaja” quando ouve algo que não lhe interessa na aula? Ou vira-se para um papo-cabeça com o colega? Ele parece desatento e distraído, mas fica horas superconcentrado no que gosta, como jogos de computador, futebol ou teclados de um piano? Ele é rebelde, respondão e detesta injustiças? Precisa que você lhe explique com todo o carinho os motivos para que obedeça? Pois seu filho pode ser um índigo — a cor arroxeada do jeans, quase lilás, e escolhida por representar uma aura positiva. O rótulo foi criado por especialistas americanos para designar uma criança hipersensível, cujo cérebro recebe muito mais estímulos que a média dos mortais. A personagem Salete (Bruna Marquezine), de “MULHERES APAIXONADAS”, é uma índigo, com uma intuição tão exacerbada que chega a ser premonitória. Quem confirma é o autor Manoel Carlos:— Nos Estados Unidos ouvi falar muito em crianças índigo. Salete é índigo. Ela tem uma percepção da luz, vê anjos, prevê acontecimentos, tem premonições. Algumas vezes, as crianças índigo não distinguem se são sonhos ou visões e nem sabem que são índigo. Mas não se trata de um fenômeno raro.

Para a psiquiatra Ana Beatriz B. Silva, o índigo ou o lilás é a versão superdotada dos portadores do já conhecido distúrbio do déficit de atenção (DDA), uma característica do funcionamento cerebral superestimulado. Há poucas décadas, o DDA era tido como doença, lesão cerebral ou disritmia, que deveriam ser tratadas com drogas pesadas, segundo ela, uma visão hoje “ultrapassadíssima”. Ana Beatriz acaba de lançar o livro, já best-seller, “Mentes inquietas” (Ed. Nepades), no qual explica como lidar com essas crianças de cérebro hiperestimulado para que elas desenvolvam suas potencialidades — geralmente geniais — e não terminem rotuladas, em casa e na escola, como intempestivas, desatentas e até agressivas, o que as leva ao desastre.

Os autores do livro “The indigo children”, Lee Carrol e Jan Tober, acreditam que haja uma geração sem precedentes de índigos nos EUA. Ana Beatriz concorda: essa geração índigo é fruto da revolução tecnológica (?), que hiperestimulou as crianças, trazendo à tona seus expoentes DDA:

— São os casos daqueles jovens que fizeram o seu primeiro milhão antes de terminar o ensino médio. Eles já eram DDA, mas, com a revolução tecnológica, foram ainda mais estimulados, hiperfocaram a atenção na eletrônica e produziram coisas geniais.

No Brasil, como a revolução tecnológica chegou alguns anos mais tarde, a explosão de potencialidades dessa nova geração índigo ainda está por despontar, mas Ana Beatriz já vê alguns deles, como o músico Marcelo Yuka, seu paciente há quatro anos, cujo “faro para a estranheza”, como ela brinca, vem desde a infância:

— Tudo o que Marcelo Yuka descobre em termos de sons e parece estranho, depois de algum tempo vira popular.

Os índigos têm ainda uma intuição exacerbada, como a Salete, que, segundo Ana Beatriz, é interpretada como uma espiritualidade elevada:

— Mas o que a ciência comprova é que os índigo têm um funcionamento cerebral diferente. Se não forem bem compreendidos, podem ser confundidos com pessoas impulsivas e agitadas.
Por que é impossível não amar Harry Potter ?
(por Daniela Name)
Hermione é a típica sabe-tudo: estudiosa, inteligente e rápida, humilha os colegas com seu dedo sempre levantado, pronta para responder num segundo à mais difícil das perguntas. Mente prodigiosa, decora poções de magia e a história dos bruxos como nenhum outro aluno da Escola de Hogwarts. Ron Weasley tem um coração tão bom e tão generoso que é difícil imaginar como ele cabe no corpo magrelo e desengonçado do melhor amigo de Harry Potter. Opa, até que enfim chegamos no nome do protagonista do maior fenômeno editorial dos últimos tempos. Harry Potter, o carismático bruxinho que fez com que toda uma geração de crianças descobrisse o prazer da leitura e alçou sua autora, a escocesa J.K.Rowling, ao posto da mulher mais rica do Reino Unido — a Rainha Elisabeth teve que se contentar com o vice-campeonato.

E por que é impossível não amar Harry Potter? Ele não é o mais CDF dos alunos, nem o mais generoso, nem o mais bonzinho, nem o mais obediente. Também está longe de ser aquele gato de parar a torre do castelo. Então o que ele tem que os outros não têm? Como este box está aqui, no meio desta reportagem, você já deve ter concluído a resposta: Harry Potter é o rei dos índigos. E é por ser assim, meio gauche, com um raciocínio um tanto quanto enviesado, que acaba livrando professores e alunos das maldades de Voldemort, o bruxo das trevas que assassinou seus pais e vem ameaçando Hogwarts desde o início da saga. No dia do assassinato de Thiago e Liliam Potter, Harry estava dormindo no berço. Voldemort tentou matá-lo, mas havia algum tipo de poder no bebê que atingiu o bruxo quase mortalmente.

O confronto deixou uma cicatriz na testa de Harry, que começa a doer sempre que o perigo se aproxima. A intuição é uma forte aliada do bruxinho na hora de resolver problemas. Ele “sente” e “intui” muito mais do que raciocina. Atormentado pela orfandade e pela fama — é amado, invejado e odiado no mundo bruxo por causa do feito contra Voldemort — Harry precisa sempre usar este feeling para sair das enrascadas. Para derrotar o mal e encontrar as respostas para os mistérios que cercam sua origem, vive desobedecendo às rígidas regras que orientam Hogwarts. E enfrentando a autoridade de professores linha-dura, como o sempre mal-humorado Severo Snape. A Grifinória — equipe de Harry, Hermione e Ron — vive perdendo pontos por indisciplina. Mas os pontos voltam em dobro. E não por força da magia, mas pelos feitos do adorável bruxinho-índigo.

Como lidar com o índigo:

Sem imposições: A psicóloga Débora Gil diz que os pais do índigo não devem fazer imposições só por necessidade de obediência. Essas crianças sensíveis, talentosas e inteligentes não aceitam explicações do tipo porque sim ou porque não, respostas, segundo ela, tidas como de criança mas muito usadas por pais autoritários. Essas crianças não funcionam assim e exigem que os pais, com calma, expliquem o porquê de suas ordens.

Castigos absurdos: As ameaças de castigos absurdos, como o homem do saco vai pegar, vão passar pimenta na boca ou o papai do céu vai castigar, podem fazer o feitiço virar contra o feiticeiro. O índigo vai ver que esses castigos não acontecem e perderá o respeito por esses pais.

Discussões fechadas: Nunca se deve discutir a respeito do índigo na frente dele. Ele vai querer participar da discussão. Até mesmo uma questão marido-mulher, do tipo você demorou a chegar, dá ao índigo o direito de se intrometer.

Pais divergentes: Se o índigo percebe que os pais discordam em muitas questões — e ele percebe tudo — vai acabar manipulando a família inteira. Os pais devem divergir longe do índigo.

Pais atualizados: Os pais do índigo devem se atualizar em questões de alta tecnologia para poder acompanhar a criança e conversar com ela. Os índigos preferem revistas de ação, desenhos mais elaborados como os do X-Man, de tecnologias mutantes, jogos eletrônicos hiperativos como The Sims, que é uma simulação da vida real; o Civilization, que cria estratégias para a civilização desde o começo do mundo e leva meses para terminar. Se os pais não se atualizam, segundo Débora Gil, rapidamente os índigos deixarão de falar com eles, com a convicção de que eles não entendem nada mesmo.

Redação na Escola: A psiquiatra Ana Beatriz B. Silva diz que nos Estados Unidos as escolas assimilaram há algumas décadas a lidar com os índigos, estimulando suas potencialidades. Uma sugestão de Débora Gil é a de redações de temas livres e variados. O índigo escreve com pressa, come palavras e teria mais facilidade em escrever sobre o que mais lhe agrada.

Professor aliado: As turmas do índigo devem ser pequenas e o professor não deve ser um superior, mas um aliado. Uma maneira de trazer a atenção do índigo é lhe passar tarefas significativas, papéis de responsabilidade. Ele deve ser convidado para ser o monitor, um auxiliar do professor e jamais deve ser repreendido em público, muito menos de maneira estúpida ou severa.

Vida contemporânea aflige crianças sensíveis

Além da revolução tecnológica, que estimula ainda mais as potencialidades das crianças índigo e DDAs, a psicóloga Débora Gil alerta que a sociedade competitiva e individualista também afeta extremamente essas crianças hipersensíveis. Por serem muito curiosas, intuitivas, solidárias e justas, a cultura do sucesso e do dinheiro pode deixá-las aflitas, ansiosas ou angustiadas. Débora Gil, que trabalha com a psiquiatra Ana Beatriz B. Silva no Núcleo de Medicina do Comportamento (Napades), no Leblon, diz que este é mais um motivo para que estas crianças sejam tratadas com maior compreensão:

— Essas crianças são hipersensíveis e essa tensão social as afeta mais que as outras.

Escolas já adotam visão diferente de índigos

Mas como funciona o cérebro índigo? O que a neurociência comprovou, segundo Débora Gil, é que o lobo pré-frontal do cérebro, que filtra os estímulos externos, trabalha mais devagar nessas crianças. Isso significa que as demais partes do cérebro recebem mais estímulos e trabalham mais rapidamente. A psiquiatra Ana Beatriz B. Silva explica que essas crianças são hiperestimuladas e, por isso, são mais inteligentes, sensíveis, intuitivas, criativas e ativas.

— Na visão ultrapassadíssima da neurologia, o exame era o encefalograma e o diagnóstico era de lesão cerebral e disritmia, com prescrição de drogas como Gardenal. Hoje sabemos que os DDAs e os índigos são apenas diferentes na velocidade do funcionamento cerebral e precisam apenas de ajuda para desenvolver suas potencialidades que são geniais — diz ela.

As drogas, como as à base de ritalina, são indicadas, segundo ela, só em casos raríssimos de extrema dificuldade de concentração e devem ser usadas em períodos de um a dois anos no máximo:

— Hoje sabemos que o cérebro tem uma enorme plasticidade. Assim como uma terapia altera o seu funcionamento, a droga também o ensina a regular a sua produção de dopamina, o que equilibra a impulsividade dos DDAs.

Os índigos sempre existiram, mas nem sempre foram compreendidos como gênios, segundo Ana Beatriz. Ela cita em seu livro índigos históricos: Einstein, que chegou a ser considerado uma criança burra por seus professores, Mozart, Beethoven, Leonardo da Vinci, James Dean e Marlon Brando estão na lista de gente lilás tida como louca.

Mas isso já passou. No Rio, os índigos e os DDAs já conquistam novos tratamentos para sua hipersensibilidade. Escolas como a Creche Acalanto, o Jardim-Escola Vilhena de Morais, o Espaço Educação e o Franco-brasileiro já não vêem seus alunos hipersensíveis como crianças-problema.

Foi o caso de João Gustavo, de 10 anos, aluno da Creche Acalanto. O menino é um ótimo pesquisador, um ótimo papo, mas sofre na hora de escrever. Não tem paciência nem para ler um enunciado de uma questão. A mãe, Claudia, foi chamada pela escola para resolverem juntos a situação:

— Não é nada grave, mas ele só se concentra no que gosta. Ele é obediente, desde que eu explique muito bem por que ele deve obedecer. Ele acha que dá trabalho ler, mas adora ficar no computador, conversa com todo mundo pelo ICQ.

A mãe de Letícia, de 5 anos, Wanda Barros, também foi alertada pelo Jardim-Escola Vilhena de Moraes que a menina parecia distraída, mas não era: apenas prestava atenção na professora e em milhões de outras coisas à sua volta.

Tiago, de 7 anos, é um artista do Colégio Franco-brasileiro. Faz comerciais, decora longos textos, conversa com todo mundo na rua, pergunta sempre por que tem que fazer o que lhe mandam. Mas, na hora de escrever, o pensamento vai mais rápido que a sua história. Sua mãe tenta pacientemente lhe ensinar a escrever com “começo, meio e fim”.
Teresa, mãe de Carolina, de 5 anos, teve que se “adaptar” à filha:— No início, eu me afligia e tentava mudá-la. Nada dava certo, ela não aceita ordens. Quando eu me irritava, eu dizia “é assim porque eu quero, sou sua mãe e pronto”. Era um desastre. Eu é que tive que mudar. Carol é assim inquieta e pronto — brinca Teresa.

COLABOROU Lílian Fernandes

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